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Colesterol alto não é só o que você come: a verdade que poucos explicam


Muitos pacientes chegam ao consultório acreditando que colesterol alto é apenas consequência de “comer errado”.E quando iniciamos o tratamento, uma dúvida quase sempre aparece:

“Doutor, se eu melhorar a alimentação, posso parar o remédio?”

A resposta exige uma explicação mais profunda sobre como o colesterol funciona no nosso organismo.


De onde vem o colesterol do nosso corpo?

Ao contrário do que muitos imaginam, 70–80% do colesterol circulante é produzido pelo próprio organismo, principalmente no fígado.

Apenas cerca de 20–30% vem da alimentação.

O fígado produz colesterol por meio de uma via metabólica regulada por uma enzima chamada HMG-CoA redutase — justamente o alvo das estatinas, medicamentos amplamente estudados na prevenção cardiovascular.

Isso significa que, para a maioria das pessoas, o colesterol alto não é simplesmente resultado do que está no prato. É, em grande parte, uma questão biológica.


A influência da genética

Estudos mostram que até 50–60% da variação dos níveis de LDL-colesterol é determinada geneticamente.

Em alguns casos, como na hipercolesterolemia familiar, essa influência é ainda mais evidente. Mas mesmo fora dessas formas clássicas, existe um forte componente genético poligênico que determina como o organismo produz e metaboliza colesterol.

É por isso que vemos situações como:

  • Pessoas com alimentação equilibrada e colesterol elevado

  • Pessoas com dieta inadequada e níveis normais

Genética não é destino inevitável — mas é um fator importante que não pode ser ignorado.

Dieta ajuda? Sim. Mas tem limites.


A alimentação saudável é fundamental para a saúde cardiovascular. Redução de gorduras saturadas, controle de peso, prática de atividade física e cessação do tabagismo fazem parte da base do tratamento.

No entanto, quando falamos especificamente de LDL-colesterol:

  • A dieta costuma reduzir o LDL em média 5 a 15%

  • Estatinas podem reduzir 30 a 60%, dependendo da dose e da potência

Grandes estudos clínicos e meta-análises demonstraram que a redução do LDL está diretamente associada à diminuição do risco de infarto, AVC e morte cardiovascular.

Ou seja, em muitos pacientes, especialmente aqueles com risco cardiovascular aumentado, a dieta isoladamente não é suficiente.


Colesterol alto é um marcador de risco

Colesterol elevado não é apenas um número alterado no exame.Ele é um marcador direto de risco cardiovascular.

O LDL participa da formação de placas nas artérias (aterosclerose), processo silencioso que pode evoluir ao longo de anos até se manifestar como:

  • Infarto do miocárdio

  • Acidente vascular cerebral (AVC)

  • Doença arterial periférica

O problema é que, na maioria das vezes, o paciente se sente completamente bem — até que ocorre o evento.


Por que não se deve suspender a medicação por conta própria?

Uma situação relativamente comum é o paciente iniciar o tratamento, observar melhora nos exames e, por conta própria, interromper a medicação.

O que precisa ficar claro é:

A melhora do exame ocorre porque o tratamento está funcionando.Ao suspender a medicação, o risco tende a subir novamente.

Em muitos casos, o uso é contínuo porque estamos tratando uma condição crônica determinada por fatores biológicos e genéticos.

Isso não significa dependência.Significa proteção.


Medicina baseada em evidência e individualização

Nem todos os pacientes precisam de medicação.Nem todos os casos são iguais.

A decisão deve ser baseada em:

  • Estratificação de risco cardiovascular

  • Presença de outros fatores (hipertensão, diabetes, tabagismo)

  • História familiar

  • Exames complementares

  • Diretrizes atualizadas de sociedades médicas

O tratamento do colesterol deve sempre ser individualizado, ético e fundamentado na melhor evidência científica disponível.

Conclusão

Colesterol alto não é apenas o que você come.É, principalmente, o que o seu organismo produz — influenciado pela sua genética.

A dieta é essencial.O estilo de vida é indispensável.Mas, em muitos casos, a medicação é necessária para reduzir risco e proteger o coração a longo prazo.

Nunca suspenda seu tratamento sem orientação médica.

Prevenção hoje é proteção amanhã.

Dr. André Luiz Vidal Gois

Cardiologia CRM-SP 109666 | RQE 30198

 
 
 

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